Texto de abertura do livro 5 Lições de Storytelling: persuasão, negociação e vendas
de: James McSill
~*~
Quase
Polo Norte.
Meio do inverno.
Escócia.
Meio da noite.
Quase tão frio que o termômetro parecia ter esgotado os tracinhos abaixo do zero.
Imagine!
Imagine que você é eu.
Imagine-se, agora, depois de ter trabalhado até às 23h00, que você saiu para uma caminhada num parque não muito distante; no máximo, dez minutos do seu apartamento. Pouco depois, de mãos sem luvas escondidas na jaqueta grossa, gorro puxado por sobre as orelhas, você já está andando pelos caminhos gelados, ladeados de montes de neve e árvores centenárias, iluminados por luzes amarelas, que pendem de postes a cada cem metros, reminiscentes da era industrial, quando o amarelo da luz seria o dos lampiões a querosene, não da luz elétrica.
Neste parque, que você conhece bem, porque é onde brincava quando criança, ia chorar as mágoas quando adolescente e ia pensar sobre os rumos da vida quando adulto, ainda, no ponto mais alto, no centro, na clareira, uma colina se ergue, como se outrora tivesse sido um vulcão. Você nunca mediu, mas sempre lhe pareceu três vezes mais alta do que os mais altos edifícios que circundam o parque. Por obviedade, a colina se chama PICO DA BANDEIRA.
Ao pico, você chega por uma estradinha estreita, que ziguezagueia por entre arbustos que acenam com folhinhas sempre-vivas, que despontam da neve que deve ter caído à tarde.
Aos 63 anos e numa temperatura de menos dez, que pode ser menos ainda, você não consegue mais correr ao pico, mas vai passeando. Para isso você saiu: para passear. A cada passo não há qualquer surpresa, nem lá em cima ao chegar. No cume, fixo numa pedra, há um mastro, no mastro uma bandeira, talvez congelada, que não se move na madrugada sem vento. Você sabe, o pano é azul com uma cruz branca, transversal. Bandeira da Escócia.
Ao pé da pedra do mastro, um banco único enfeita o pavimento demarcado por uma cerca de ferro fundido, posta ali em tempos imemoriais, para que um descuidado qualquer não role colina abaixo.
Mesmo no inverno você não vê as ruas, apenas os telhados dos prédios, as centenas de chaminés a exalar vapores e o céu. A abóboda de luzinhas cintilantes estende-se como um véu por cima da cidade. O ar seco que você respira transformou a umidade em neve, entre você e as estrelas parece não haver nada. Quando criança, você dizia que, ali, se subisse no banco, poderia arranhar o céu e sujar os dedos de estrelas, mas como iria explicar para a mãe ao voltar para casa com a mão tão luminosa? Ah! Mas tinha o mastro, tão alto, e as provas cabais de que ele rasgava o manto escuro e as machucava: não era surpresa, se você ficasse ali uma hora ou duas, uma estrelinha batia na ponta, que se espichava para além da bandeira, e caía.
E você faz um desejo.
Voltar ali sempre, até ao fim da vida.
E você volta. Quando ainda é jovem se pergunta o que são as estrelas, do que são feitas, por que cintilam, um dia iremos até elas?
E você volta. Adulto.
Algumas noites você apenas se encanta, noutras você se enche de espanto.
Nessa noite você deixa essas questões tolas de lado, esconde o nariz na gola agora levantada da jaqueta, inspira, senta-se e relaxa. Que importância tem tudo isso?
Você olha para cima, o mastro arranha o firmamento.
Ou parece arranhar.
Quem se importa!
Uma estrelinha se choca com a ponta do mastro que fica acima da bandeira.
E a estrelinha risca o céu e cai.
No ocaso da vida ainda há desejos?
Há!
Você vai desejar que…
Que…
Está prestes a fazer o desejo naquela noite.
Mas não faz.
Você se levanta do banco e num pulo está segurando a cerca de ferro. Por um instante o parque se abre à sua frente. E desparece. E não está mais ali.
E…
Aliás, está ali, só que você sabe, não é mais o seu parque. É o seu parque cinco milhões de anos depois.
— Em cinco milhões de anos o sol se apaga — diz a professora.
Você não acredita.
Não acredita, mas baixa o olhar, afinal, ela é a professora e deve saber quando o sol se apaga.
Você fecha os olhos, mas a imaginação não imagina nada. A sua cabeça esvazia se pensa no fim do mundo.
A professora chama-o pelo nome e você a encara de lado, com um olho só aberto.
Ela franze a testa.
— Assim será o fim do mundo — completa.
— Sim … Apocalipse — ressoa uma voz atrás de você.
Cínico, você pensa. Pois sabe que mitos sobre o fim do mundo existem desde que o mundo é mundo, mas mito é mito. O que a professora diz, porém, é verdade, é Ciência.
Você fecha os olhos para voltar à cerca, ao banco ao pé do mastro. Fazer o desejo e voltar para casa.
Mas você flutua no vazio da sua cabeça. Ver, ouvir, cheirar… tudo está ali. Mas você não está mais. Você é a sua mente. Pura e simplesmente presa dentro do seu crânio, resultado da atividade da eletroquímica do seu cérebro.
O que está acontecendo?
Você precisa de ajuda.
Por que não trouxe o telefone consigo? Sempre traz, justamente hoje se esqueceu.
Justamente hoje!
Justamente agora.
Justamente quando…
Não é mais noite.
Nem dia.
À sua frente, você tem certeza de que não muito longe de onde está, uma bola de fogo consome o céu e as minúsculas estrelinhas. O fogo alaranjado impõe-se em fachos encarnados, escuros.
E se avoluma.
Na sua direção.
Não demora muita para notar que a cerca de ferro fundido não existe mais. A relva que cobre a colina do mastro da bandeira não existe mais. O solo, antes coberto de relva, não existe mais.
Não existe porque derreteu. A sua superfície cobre-se de pedras como brasas. Você agora sabe que à sua frente você se depara com o planeta em chamas. Uma terra liquefeita.
O que é isso? Que bola de fogo monstruosa é essa que derrete o mundo? Seria só aqui ou seria o mundo inteiro?
A resposta vem depressa.
Você flutua no espaço. Longe dali uma bolinha de nada parece girar expelindo fagulhas. A bola maior, imensamente maior, também gira tresloucada, e cresce.
Cresce.
Num instante, duas vezes.
Noutro, três.
Noutro, você já não sabe…
E engole a bolinha de nada, mais outras.
E outras.
E todas.
Filamentos de luz enchem o espaço. Se você compreendesse a velocidade da luz, diria que cresce, gira, expele línguas de fogo à essa velocidade.
O que você vê é tão belo. Monstruosamente sublime. A bem da verdade, você está vivendo um dos momentos mais belos e violentos do Universo.
Sem, sequer, um ruído. Não há som no vácuo.
Você não acredita que a estrela vai crescer ainda mais. Mas está enganado. Ela se expande de tal forma que vai além da sua imaginação, que ainda pensa no planetinha que, há pouco, aniquilou-se no seu interior.
Que tamanho está agora?
Vinte vezes maior?
Cinquenta?
Cem?
Sem que você espere a estrela explode. Toda a matéria de que foi feita se esvanece no espaço sideral. Uma onda de choque varre o seu corpo e…
Poeira.
Pó.
Nada mais que pó em todas as direções. Uma nuvem de poeira em ondas coloridas cuja compreensão há muito fugiu à sua mente, agora é domínio dos deuses.
Aos poucos você cai em si. Aos poucos, mesmo você entende o que se passa. Uma lucidez invulgar preenche cada canto em você e transforma-se num incompreensível, talvez, medo. A estrela que acaba de morrer não se trata de qualquer estrela, mas o Sol. O seu sol. O planeta que queimou não é qualquer planeta, é a sua terra: a Terra.
A sua casa.
A sua rua.
O seu parque.
A sua colina.
O seu mastro com a bandeira da Escócia.
O seu firmamento agora é lembrança. O frio é lembrança. O seu patriotismo é lembrança. Tudo passado.
Você acaba de testemunhar o fim do mundo.
E você lembra da professora:
“Em cinco milhões de anos o sol se apaga.” Você não acredita, mas baixa o olhar. A professora deve saber quando o sol se apaga. Você fecha os olhos e a imaginação não imagina nada, numa cabeça vazia se pensa no fim do mundo e agora sabe tudo. Não há mais professoras para chamar você pelo nome ou para que você encare de lado, com um olho só aberto.
Só que não existem mais olhos.
Nem mais você.
“Assim será o fim do mundo”, completa.
“Sim… Apocalipse”, você ainda se recorda da voz atrás de si.
Cínico, você pensa. Pois sabe que mitos sobre o fim do mundo existem desde que o mundo é mundo, mas mito é mito. O que a professora diz, porém, é verdade, é Ciência.
Você dá tudo para franzir uma testa que não existe mais.
A palavra ‘derrota’ vem à mente.
Mas se esvai.
Você fecha os olhos para voltar à cerca, quem sabe…
Ao banco ao pé do mastro, quem sabe...
Fazer o desejo.
E voltar para casa.
Quem sabe…
Quase Polo Norte. Meio do inverno. Escócia. Meio da noite. Quase tão frio que o termômetro esgotou os tracinhos abaixo do zero. Imagine!
Imagine que você não é eu.
É?
Pode ser?
Quem sabe…
Quem sabe?